quinta-feira, 19 de março de 2026

Endividada, empresa de ônibus de São Luís/MA desvia R$ 1,6 milhão a mineradora


Segundo matéria do saite Metrópoles. Em meio a grave crise financeira que deixa funcionários e motoristas sem salário, FGTS e até mesmo auxílio alimentação, o grupo Expresso Rei de França – que atua no transporte coletivo de São Luís – tem driblado bloqueios judiciais e transferido verbas milionárias recebidas do poder público para uma mineradora e, assim, pagar até mesmo o cartão de crédito do empresário Pedro Paulo Pinheiro Ferreira, conhecido como PP.

Extratos bancários de duas empresas do grupo revelam o repasse de R$ 1,6 milhão à Goldcoltan em um período de quase três meses no fim do ano passado. O valor faz parte de uma movimentação total de R$ 6,7 milhões em débitos. Os documentos detalham ainda os pagamentos do cartão de crédito e de aluguéis em nome de Pedro Paulo.



A Goldcoltan é o nome de uma empresa de mineração que pertence a PP e também de uma outra firma de serviços de limpeza, que está em nome da filha do empresário.

Atualmente, Pedro Paulo é vice-presidente do Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros de São Luís (SET). A entidade gerencia a receita dos bilhetes de transporte público do município e repassa os valores para as empresas autorizadas a operarem na capital do Maranhão. Uma delas é a própria Expresso Rei de França, que está em nome da fotógrafa Deborah Piorski Ferreira, filha do executivo.

O grupo Rei de França está em processo de recuperação judicial em razão de dívidas que acumulam R$ 177 milhões.

Pedro Paulo o PP


O repasse do dinheiro do transporte público de São Luís à mineradora tem chamado a atenção de credores justamente por conta de bloqueios judiciais feitos contra as empresas de ônibus. A situação pode configurar blindagem patrimonial. Em conversa com a coluna, a própria advogada do Expresso Rei de França admitiu a manobra.

“As empresas em recuperação judicial vinham sofrendo bloqueios e constrições recorrentes em suas contas. Diante desse cenário, foi adotada uma sistemática operacional de centralização financeira, com repasses ao final do dia para conta vinculada à Goldcoltan, a partir da qual eram realizados pagamentos de despesas operacionais essenciais do grupo”, afirmou Evelline Freitas (leia a íntegra da manifestação ao fim desta reportagem).

A advogada da Expresso Rei de França não explicou, porém, os possíveis pagamentos de contas pessoais de Pedro Paulo. Os extratos bancários mostram repasses de R$ 131,7 mil via Pix, entre setembro e novembro de 2025, diretamente ao empresário ou com descrições como “Aluguel PP”, “Cartão de crédito PP”, “Locação apto PP” e “Enxoval PP”.

As empresas familiares de Pedro Paulo

Levantamentos extrajudiciais demonstram a existência de uma teia de CNPJs mantidos em nomes da esposa e filhos de Pedro Paulo. Os credores do grupo Expresso Rei de França apontam que os parentes são usados como “laranjas” na tentativa de esconder o verdadeiro dono das empresas.

O próprio grupo da Expresso Rei de França é um exemplo. As companhias – o que inclui também a Expresso Grapiúna – tiveram PP como administrador entre abril de 2021 e janeiro de 2024. Desde então, a filha dele, Deborah Piorski, passou a controlar a empresa de ônibus por meio de uma holding. Documentos da Junta Comercial do Maranhão (Jucema) apontam que a transação custou R$ 1 milhão.

Nas redes sociais, Deborah Piorski se apresenta como “fashion photographer” em Fortaleza, ou seja, a cerca de 670 km da sede da Expresso Rei de França em São Luís. A coluna tentou contato com ela, mas não obteve retorno.



Filha mais nova de Pedro Paulo, Jessica Piorski também aparece como proprietária de diversas empresas, entre elas a Goldcoltan Services Ltda, a firma que presta serviços de limpeza; a Viação Tucujus Ltda, empresa de transporte coletivo de passageiros sediada em Macapá; a JPF Trade Importação e Exportação Ltda, destinada ao comércio atacadista de açúcar; e a P3 Bank Ltda, voltado ao fornecimento de conta e cartão para motoristas.

Nas redes sociais, porém, Jessica Piorski se apresenta como publicitária e criadora de conteúdo geek. Confira



Expresso Rei de França admite tentativa de blindar patrimônio

À coluna, a advogada Evelline Freitas, que representa o grupo Expresso Rei de França na recuperação judicial, confirmou que os repasses feitos à Goldcoltan têm como objetivo driblar os bloqueios judiciais.

“Diante desse cenário, foi adotada uma sistemática operacional de centralização financeira, com repasses ao final do dia para conta vinculada à Goldcoltan, a partir da qual eram realizados pagamentos de despesas operacionais essenciais do grupo”, prosseguiu Evelline Freitas.

A advogada do grupo afirmou ainda que os lançamentos não podem ser interpretados de forma isolada como “desvios”, pois estavam inseridos em “uma dinâmica de preservação da continuidade operacional, manutenção das atividades empresariais e cumprimento de obrigações correntes diante das restrições bancárias enfrentadas pelas empresas em recuperação.”

Mesmo questionada, a advogada não explicou, porém, os pagamentos do cartão de crédito e de aluguéis do PP. “Eventuais esclarecimentos adicionais poderão ser prestados em momento oportuno, pelos canais adequados, com a devida análise técnica e documental do caso".

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